
Os avós e a quarentena
Um provérbio chinês recorda que “para criar uma criança é preciso uma aldeia”, dando conta da necessidade de uma comunidade para um crescimento saudável dos mais novos. “Pôr uma criança no Mundo” é fácil, agora criá-la é uma tarefa que carece de mais do que um ou dois adultos. Depois de uma primeira etapa em que o bebé está totalmente voltado para o cuidador principal, habitualmente a mãe, é natural e desejável que pouco a pouco se “intrometa” nesta relação o “terceiro elemento”, representado pelo pai e por todas as outras figuras que passam a fazer parte do mundo relacional da criança. E é esta variedade de tons de voz, de sorrisos, de reações, de modos de dar colo, de alimentar, de adormecer, de brincar, são todas estas criatividades diferentes que oferecem à criança um laboratório do mundo. No bebé de poucos meses é extremamente importante a previsibilidade e a segurança, mas mais adiante a criança precisa de experimentar a novidade e a frustração, de deixar surgir a sua criatividade. É este o caminho para a flexibilidade cognitiva, a competência que permite ao ser humano adaptar-se a situações novas. E nestes tempos tão diferentes de tudo o que já vivemos, percebemos muito bem que o mais importante para ultrapassar com serenidade esta fase não são as competências cognitivas. Pode-se ser muito inteligente (do ponto de vista académico) e não conseguir adaptar-se às mudanças. Pelo contrário, a história da humanidade baseou-se na capacidade dos seres humanos se adaptarem às novas situações e influirem no ambiente para procurar os recursos para a sua sobrevivência.
Por vezes, com uma maior disponibilidade interior que os próprios pais, exaustos das noites mal dormidas. É verdade que a convivência entre as 3 gerações nem sempre é pacífica, porque aquele chocolate dado pela avó às 21h às escondidas dos pais, sabe muito bem à criança, mas altera-lhe francamente o metabolismo e o sono. Mas tudo somado, os avós são uma riqueza inestimável e um apoio imprenscindível para os pais.
E com a quarentena? Com a quarentena, aqueles a quem tanto devemos têm de ficar sozinhos, mais isolados do que ninguém. Amá-los nesta fase é não estar fisicamente perto deles, pois correspondem ao grupo de risco mais vulnerável. E isto é muito duro. Para toda a família, mas especialmente para eles. Muitos não dominam sequer as novas tecnologias, o que torna o distanciamento ainda mais penoso, pela falta de alternativas relacionais. E temos avós mais tristonhos, mesmo deprimidos, outros muito ansiosos, alguns a desenvolver queixas físicas de uma tensão interior que advém da privação do mais importante das suas vidas: a sua família, as suas ocupações. Muitos avós ficaram “desempregados”, não podendo já ficar com os netos, nem fazer aquele almoço de domingo que preparavam durante toda a semana.
A quarentena é dura para todos. Para as crianças que estão “fartas” de estar de casa e querem ver os amiguinhos, para os adolescentes que clamam pelo seu espaço privado e autónomo, para os pais que não conseguem gerir o seu trabalho, as obrigações escolares dos filhos e a tensão de toda a família, mas especialmente, a quarentena é muito dura para os avós. Todos os outros sabem que isto vai passar e têm toda uma vida pela frente, em que contarão aos seus esta história estranha que estamos a viver. Mas os avós pressentem que já não têm toda essa vida e quereriam viver este tempo presente rodeados das maiores riquezas das suas vidas.
Por isso, o que queria sugerir a todos é o seguinte: lembrem-se dos avós! Façam-se presentes com telefonemas, videochamadas se possível, ofereçam-lhes dispositivos que lhes permitam estar em contacto com o resto da família, recolham fotos de família, desenhos, postais dos mais novos, peçam-lhes favores (como uma refeição, uma camisola, qualquer coisa que eles possam fazer para se sentirem úteis e que seja exequível de ir buscar às suas casas, sem grande contacto), oiçam as suas queixas, cantem canções ao telefone. E se tiverem de passar pela zona, de carro, toquem à campainha e digam-lhes um “olá” à distância. Não se esqueçam das datas importantes e recordem-lhes que quando tudo isto passar, havemos de dar abraços a dobrar, de celebrar todas as festas a triplicar, de comer juntos a quadruplicar. E aos que estão doentes, ofereçamos muito carinho reinventado na forma mas não na intensidade.
Temos um dever para com os avós. E não é um vírus que nos vai impedir de sermos família.
Fica aqui uma homenagem a todos os avós, com um abraço de gratidão a estas raízes que sustentam a aldeia toda.

Dr.ª Cátia Almeida
Pedopsiquiatra
Médica CSSMH
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