Pediatria - anos de vida

Os melhores anos da nossa vida

É comum dizer-se a recém-pais, ao vê-los embevecidos com os seus bebés, que aproveitem muito bem essa fase, que passa a correr, que disfrutem cada minuto com os seus pequenos, que a partir daí é sempre a perder. Se pensarmos bem, o crescimento faz-se em expansão, de dentro para fora, num movimento que vai do colo da mãe aos grupos sociais mais alargados em que nos movemos na vida adulta. Começamos no ninho e acabamos a voar em bando, pelo céu fora. E o tempo em que as crias estão com os pais está mesmo em contagem descrescente desde que nascemos.

A maior parte da nossa vida faz-se fora do ninho. E para os pais, fica sempre a sensação de que passou tudo muito rápido. Não é curioso que esses primeiros anos de vida, dos quais não temos sequer memória, sejam os anos mais importantes para o nosso crescimento? Sabe-se hoje que os pilares da nossa arquitetura cerebral são estabelecidos nos primeiros anos da nossa vida.

Os alicerces da nossa personalidade estão a ser edificados aos 3 anos, enquanto corremos atrás duma bola, sem que nós nos apercebamos disso. O cérebro humano ao nascer é ainda muito imaturo, se quiserem tem o “hardware”, mas não tem o “software” a funcionar. As experiências precoces do bebé, na relação com os seus cuidadores e com o meio envolvente vai “ligar os fios” cerebrais e estabelecer uma complexa rede neuronal que faz de nós o que somos.

O cérebro do bebé tem uma plasticidade enorme, é como uma esponja capaz de absorver tudo, ávido de experiências. Cada ano que passa, os circuitos vão-se fechando, mantendo-se ativos só os que foram usados, fechando-se, por isso, janelas de oportunidades ímpares. Então, o maior investimento que podemos fazer nos nossos filhos é o tempo de qualidade que passamos com eles nos primeiros anos de vida! E curiosamente, o que os filhos querem é exatamente isso: tempo com os pais, a atenção e o carinho dos pais. E vão fazer tudo para reclamar o que lhes pertence por direito. Até fazer disparates e birras. Porque tudo o que quer uma criança é que os seus pais olhem para ela, que lhe dêem atenção.

E nós adultos, cansados do dia de trabalho e das contas para pagar, desejamos chegar a casa para despachar as tarefas, jantares e banhos e ter um momentinho de sossego. “Não tenho tempo para brincar contigo hoje, filha, desculpa!”, dizemos com um sentimentozinho de culpa. Pois bem, logo hoje birra descomunal para ir para a cama! 67 minutos para acalmar a fera e conseguir pô-la a dormir!…

Moral da história: quando não temos tempo para os filhos, eles arranjam forma de estarmos com eles. E fazem isto porque precisam de nós e nós… na verdade, precisamos deles. São o que de melhor nós fizemos na vida e o que levamos desta. São a motivação para a maioria das nossas ações, são as melhores memórias que um dia vamos guardar.

Educar (do latim educare ou educere, tirar de dentro) é deixar sair dos nossos filhos todo o seu potencial, fazendo-lhes companhia nestes anos incríveis da sua infância. 

Nem sempre é fácil, nem sempre acertamos, nem sempre sabemos o que fazer. E não tem mal nenhum. Aprende-se a ser pai ou mãe, sendo. Procurando dia-a-dia soluções criativas e estratégias alternativas, com sentido de humor, que consigam encontrar o equilíbrio bom para as duas partes: pais e crianças felizes, a disfrutar dos melhores anos das suas vidas! E se, caro leitor, é pai ou mãe e esse papel estiver a ser demasiado pesado, duro, nada prazeroso, algo se passa. Ser pai ou mãe não é fácil, mas é mais fácil do que se julga, se estivermos munidos das ferramentas certas. Vamos falar sobre isso?


Os Anos Incríveis – Programa para pais a pensar no filhos

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Drª. Cátia Almeida - Pedopsiquiatria

Drª. Cátia Almeida

Pedopsiquiatra na Casa de Sáude São Mateus Hospital